segunda-feira, 7 de junho de 2010

A culpa é do Telê

Claro que é. O cara fez aquelas seleções de 82 e 86 jogarem por música, futebol ofensivo, futebol com ginga, jogo bonito e, na hora das decisões, perdeu. Perdeu, tá certo, jogando ofensivamente, jogando bem. Mas perdeu.

Passaram-se anos e, em 94, o Brasil de Dunga mostrou ao mundo que sabia sim jogar feio. E ganhar. Aí, o brasileiro binário, o maniqueísta, aquele cara que só vê o preto e o branco, céu e inferno, pensou: “Humm, jogar bonito faz a gente perder. Jogar feio faz a gente ganhar. Dane-se o belo. Eu quero o caneco”.

Era a morte do meia. Crianças pelo Brasil afora podiam ser flagradas em cima de suas camas tirando o pôster do Raí da parede e colando o do Dunga. O volante passou a ser o epicentro do jogo, a razão da nossa existência. Comentaristas falavam maravilhas sobre o chutão, um lateral bem batido era motivo de fogos de artifício.

Dar um carrinho e destruir a jogada ganhou status de drible. Sistemas defensivos que matavam sistemas ofensivos mereciam aplausos de pé. E aí, depois de um breve hiato com Felipão -quando jogamos mais ou menos e ganhamos mais ou menos (danke, arbitragem) -, fizemos nascer a era Dunga. Ah, a era Dunga.

Foi nela que finalmente aprimoramos a arte de jogar como time pequeno. Com raça, mas bem pequeno. Aprendemos a ficar atrás, recuados, e sair apenas no contra-ataque. Matamos o toque e o drible, fizemos valer a arrancada e a bola parada. Fazemos isso contra a Argentina (e ganhamos! Olha que maravilha) e contra a Tanzânia (e também ganhamos, que lindo).

Aliás, fazemos isso em qualquer situação, sempre. Felipe Melo é herói nacional. O cara que mata a jogada (ou, eventualmente, o jogador). O cara da botinada. O cara do encontrão. Felipe é raça. Felipe esmurra o peito feito um hulk amarelado quando dá um chutão para a lateral. O cara é valente, olha o inimigo de frente, ameaça, levanta o queixo, empina o peito. Isso é Brasil. Isso é Brasil hoje.

Enquanto o tempo passa e a gente continua na botinada, Guardiola mostra com o Barcelona que existe uma terceira opção de jogo: jogar bonito e ganhar. Como não pensamos nisso antes deles? Céus! Claro que não dá para ganhar sempre, mas, ele nos mostra, dá para encantar sempre. E isso, no final, é bem mais importante do que vencer.

O futebol como manifestação artística. E não como uma forma de batalha idiótica. Vai, Brasil, manda a jabulani para a arquibancada, esmurra o peito feito um gorila esfomeado e, depois, bate continência para o capitão. O mundo está de olho.

12 comentários:

  1. Vc é muito Má Milly, sobre o Telê é isso mesmo vc achou o culpado...rsss Eu odeio o Telê!! e é sério.. sou daqueles que torcia contra o Sampa, mas eu odiava o Sampa do Telê foi o cara que me fez sofrer!

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  2. Eu sou são paulina, amo o Telê, mas vc tem toda a razão ! Que futebol mixo...

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  3. E há no mundo coisa mais linda que um jogador que corta um cruzamento qualquer e é aplaudido pela galera?
    E o goleiro que faz uma defesa e comemora como se fosse título?
    Mas não há de ser nada, o futebol é cíclico e tenho cergteza que esse time do Dunga não ganhará nunca nada sério - já falhou na Olímpiada - aí o futebol de verdade vencerá!

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  4. Para lembrar: o campeão dos campeões da Europa atualmente é a Internazionale e não o Barcelona. Futobel forte e objetivo. Melhor defesa (por coincidÊncia a do Brasil). Os tempos mudaram. Em uma Copa para vencer tem que ter conjunto e solidez. Futebol Arte é para ver e eu gosto, mas para vencer é bem diferente.

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  5. o Anônimo só esquece que ano passado o campeão europeu foi esse mesmo Barcelona que joga bonito. Lógico que jogar bonito não é sinônimo de perder e time retrancado não é sinônimo de vitória.

    Acho que há muita má vontade com esse time do Dunga. Já o critiquei antes, mas ganhamos duas vezes de 3x0 da Argentina, depois metemos 3x1 neles lá em Rosário, 4x0 no Uruguai em Montevidéu, 3x0 na Itália, 6x2 em Portugal e ganhamos da Inglaterra. Ainda ganhamos a Copa América e a Copa das Confederações, as duas competições que o time principal disputou. Querem mais o quê?????

    além disso, sou do Sul (de SC, não gaúcho) e aqui nós valorizamos sim carrinho, contra-ataque, marcação, etc. Claro que todo mundo aqui gosta de drible, tabelinha, golaço, etc., mas um desarme perfeito, um contra-ataque bem articulado, uma defesa monumental do goleiro também é "futebol-arte". Pagamos ingresso para ter 90 minutos de emoção, não para ver show de malabares.

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  6. Jorge Henrique dos Santos10 de junho de 2010 10:28

    Tu tem algum clube do coração? Tu já ganhou algum título na arquibancada, independente de estar jogando bonito ou estar jogando feio?

    Se a resposta é não para essas duas perguntas, por favor, tenha a experiência antes de falar bobagens como "Claro que não dá para ganhar sempre, mas, ele nos mostra, dá para encantar sempre. E isso, no final, é bem mais importante do que vencer". Vencer é mais importante sempre. E isso não é "batalha idiótica". Se eu quero ver arte, vou no museu, vejo um filme, leio um livro etc. No estádio eu quero vencer.

    Futebol é competitividade. Futebol é catarse. "O futebol como manifestação artística" é bonito apenas e tão somente se leva a vitória.

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  7. Catarse em jogo modorrento?! Me diga como.

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  8. Me perdoará o pernosticismo, mas quero citar um filósofo para explicar minha ideia de jogo de futebol. Walter Benjamin já se debruçou, pelo menos em textos curtos, explorados longamente na ideia de profanação de Agamben, sobre a questão do brinquedo. Ao resenhar um livro de história dos brinquedos, Benjamin mostra como no princípio o brinquedo era a transformação de um objeto, digamos, neutro, um pedaço de pau que resta da marcenaria, por exemplo, poderia virar um boneco ou uma espada nas mãos de uma criança. Num tempo de aburguesamento e de educação infantil num ambiente protegido, a indústria da madeira ou outros setores começaram a ver na criança um nicho de mercado, e produzir brinquedos. Ocorre que o brinquedo já era, em seu formato, um soldadinho de chumbo, uma boneca, uma charrete. Ou seja, o objeto já determinava o modo de se o considerar. Não raro, brinquedos assim acabavam como ornamento de quartos infantis, como hoje ocorre com os toy-arts. A criança sempre preferiu a bola, a corda e o pedaço de pau, justamente pela liberdade de uso que eles conferem.
    É por isso que criança nunca deu muita atenção a um código de regras para brincadeiras, e serão sempre as primeiras a desviarem delas, seja furtivamente, seja expressamente, em nome da liberdade. Se considerarmos o jogo como um conjunto de regras dentro do qual se brinca, e futebol é antes de tudo uma brincadeira com a bola, o jogador tem que enfrentar tanto as limitações do adversário quanto as das regras.
    É por isso que abandonar a finta, o drible, a rotatividade de posições, os toques rápidos, a criatividade, a liberdade – armas profanatórias contra o adversário – e até mesmo a catimba, o pênalty cavado, a ajeitada com a mão – armas profanatórias contra as regras – em nome da extrema disciplina, da segurança, do conservadorismo, da maturidade, do toque para o lado e para trás, do chutão pra frente, da retranca, e de sistemas cada vez mais modernos e infalíveis de controle das regras, é acabar com o que futebol tem de brincadeira. Futebol vira essa coisa séria que faz torcedor querer se jogar do São Januário, e não mais rir e se divertir.
    Mas tem uma coisa: carrinhos, roubadas de bola e belas defesas, se bem efetuados e não como brucutus que levam a bola e a perna do adversário, são coisas lindas sem as quais não teria o menor sentido o drible. Claro que contam também.

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  9. Jorge Henrique dos Santos10 de junho de 2010 15:37

    Jogo "modorrento" que se ganha é uma vitória tão válida quando uma vitória em um jogo espetacular, com "a finta, o drible, a rotatividade de posições, os toques rápidos, a criatividade, a liberdade".

    Vejam que em nenhum momento disse que não gosto de futebol bonito. Eu gosto. Eu acompanho futebol porque gosto. Agora quando o Inter joga, eu não estou nem aí se o D'Alessandro vai fazer o 'la boba' na linha de fundo e fazer a torcida vibrar. Eu quero a vitória. Simples.

    Um exemplo clássico é aquela carregada de ombros do Alexandre Pato na semi-final do Mundial de 2006. Jogada de efeito, todas as televisões do Japão passando e repassando o lance incansavelmente. Só que ninguém se lembra que ele chegou na linha de fundo e errou o cruzamento. Preferia mil vezes que ele tivesse carregado a bola trombando com meio mundo pelo caminho e cruzasse na cabeça do Fernandão.

    O que acontece é que sempre vai ter alguém procurando alguma coisa pra reclamar. Em 2006 o time do Brasil tinha trocentos craques. Aí todo mundo reclamava que não tinha entrosamento, que todo mundo era individualista etc etc etc. Eu, inclusive, concordo com isso. Timezinho de merda aquele. Agora que o Brasil tem um time entrosado, comprometido, COMPETITIVO, todo mundo reclama que não tem individualismo, não tem firula, não tem malabarismo. Só quem "exige" firula e malabarismo no futebol é jornalista e mulher. Quem quer ganhar vai gostar do jogo independente disso tudo, desde que saia com a vitória.

    Em tempo: pelo senso comum - dos jornalistas e das mulheres -, "a catimba, o pênalty cavado, a ajeitada com a mão" - e incluo aí o gol impedido, a pisada na mão do adversário, a cusparada na nuca, o xingamento no pé do ouvido etc - fazem parte de um jogo "modorrento", não de um jogo "bonito".

    Quer dizer, eu acho bonito, mas não é bonito pros jornalistas e pras mulheres.

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  10. Peraí, "a pisada na mão do adversário, a cusparada na nuca, o xingamento no pé do ouvido etc." não é malandragem nem brincadeira, é violência pura. Coisa de, digamos, Felipe Mello...

    Outra, firula não é jogo bonito. É firula. Coisa de gente que dança sem saber o que fazer na frente do defensor.

    E mais uma: 2006 vai ser uma desculpa eterna para os brucutus e burocratas. Como se aquilo ali fosse o que eu e o pessoal deste blog estamos defendendo.

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  11. Otávio Niewinski10 de junho de 2010 16:43

    Gostaria de ser informado em qual jogo da Seleção o "violentíssimo" Felipe Mello cuspiu ou pisou em alguém...

    Outra coisa ridícula é dizer que o Dunga convocou VÁRIOS cabeças-de-área, quando na verdade levou apenas três. TRÊS. Sendo que joga com apenas dois, como qualquer time NORMAL faz. Quem acha que Elano ou Ramires, por exemplo, são volantes, ou não entende de futebol ou é do Casseta & Planeta...

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  12. Jorge Henrique dos Santos10 de junho de 2010 17:02

    Coisa de Felipe Mello e de 100% dos jogadores. Não te engana. O Pelé era REI, também, de dar cotovelada. O que tu chama de "violência" faz parte do que eu chamo de "jogo", quer tu queira, quer não.

    E 2006 serve do que tu chama de "desculpa" para os que tu chama de "brucutus e burocratas" porque não venceu. Se tivesse vencido serviria do que eu chamo de "nada" para os que tu chama de "brucutus e burocratas" e quem gosta do que tu chama de "futebol bonito" estaria lendo textos como o que está escrito ali e não encontraria o que eu chamo de "sentido" mesmo assim, pois a vitória teria sido o que eu chamo de "definidora da qualidade" daquela seleção.

    Resumindo tudo, pra quem ainda não entendeu: VITÓRIA > futebol bonito ou VITÓRIA > futebol força. VITÓRIA é o que move o futebol.

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